
Apesar da proliferação dos centros religiosos paulistas que atraíam a presença
dos fracos do peito, nenhum outro local granjeou tanta fama quanto a igreja matriz da
vila de Poá, área então pertencente ao município de Mogi das Cruzes e localizada a
cerca de 35 Km da cidade de São Paulo.
No ano de 1935, o sacerdote holandês Eustáquio Van Lieshout foi designado
para coordenar os serviços pastorais naquela comunidade, imediatamente ganhando
prestígio como médico e farmacêutico improvisado que curava todos os adoentados
que o procuravam. A declarada devoção do padre Eustáquio à Nossa Senhora de
Lourdes, estimulou os
boatos que apontavam o filho da Ordem do Sagrado Coração como responsável pelas
‘curas milagrosas’ de diversos pectários, fato que instigou ainda mais a presença de
tuberculosos na pequena Poá.
A agitação que tomou conta do núcleo religioso chamou a atenção da polícia
getulista que, no final da década de 30, designou o médico Aguiar Whitaker (1944) para
averiguar de perto o que vinha acontecendo na paróquia comandada pelo padre holandês. O Dr. Whitaker, por sua vez, convocou meia dúzia de ‘secretas’ para o acompanharem até o local dos acontecimentos, misturando-se aos peregrinos para descobrir a
verdade sobre os milagres.
As descrições elaboradas pelo médico da polícia são impressionantes: a vila
que contava com pouco mais de uma centena de habitantes era tomada diariamente por
cerca de 10 mil visitantes, sendo que a região transformara-se em um “acampamento de
barbaros”, onde paralíticos e portadores de moléstias infecto-contagiosas
engalfinhavam-se na disputa pela água benzida pelo padre Eustáquio.
Curioso para saber com precisão o número de tísicos que cotidianamente compareciam àquele centro de milagres, o Dr. Whitaker manteve-se indeciso, resignando-se
em tecer um paralelo entre a matriz de Poá e a basílica francesa de Nossa Senhora de
Lourdes, assinalando que, no caso do santuário europeu, pelo menos um terço dos
peregrinos era composto por doentes pulmonares.
Rejeitados por muitas das pessoas íntimas, aviltados no emprego e espreitados
pela polícia, muitos convalescentes sentiam-se verdadeiros mendigos que esmolavam
solidariedade e saúde. Não, não era tarefa fácil o retorno e permanência dos pectários
para o mundo que lhes fora minimamente acolhedor até o momento em que a ‘magrinha’
se apoderara de suas existências. “Oh! desespero das pessôas tísicas...”, esta sentença
de desabafo foi pronunciada na segunda década do século passado pelo fimatoso
Augusto dos Anjos e ajusta-se com perfeição ao sentimento de muitos personagens
consuntivos que tentaram reingressar na pátria dos sadios, resultando no acréscimo de
novas mágoas às biografias dos tísicos.
Fonte: História social da tuberculose e do tuberculoso: 1900-1950Claudio Bertolli Filho
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